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Governo Temer: até onde a democracia aguenta - EDITORIAL

EDITORIAL Governo Temer: até onde a democracia aguenta

Quando os caminhoneiros cruzaram os braços, o país entrou em convulsão. A escassez piorou a crise econômica. O presidente perdeu o mando. O governo caiu. A história ocorreu no Chile da década de 1970. A greve dos caminhoneiros chilenos foi o golpe final no governo de Salvador Allende, enxotado pela ditadura de Augusto Pinochet. O episódio faz perguntar se o Governo Temer segue pelo mesmo caminho. E cria ansiedade sobre as condições de sobrevida da democracia brasileira.

Depois de alguma calmaria, o risco político volta a sacudir as expectativas. É o que revelam as ações da Petrobras, um indicativo desse risco. Desde o impeachment de 2016, o valor delas subiu quase 500 por cento. O mercado apostava na firmeza do tempo. Tudo iria bem até as próximas eleições – até que a conjuntura atual baqueou a situação. O valor das ações sofre uma queda aguda. É um alerta sobre um possível período conturbado, talvez mais conturbado do que o suportável. Depois dessa convulsão, o que pode restar de nossa experiência democrática?

O Governo Temer surgiu com uma missão perigosamente importante. Deveria se manter até que as eleições de 2018 fossem realizadas. Disso possivelmente depende a sobrevida de nosso regime democrático. É o que faz concluir pesquisas como a do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação. De acordo com a pesquisa, grande parte do povo brasileiro está decepcionada com a democracia. Mais do que isso, ela apoiaria um golpe militar. Persiste aquele fetiche brasileiro pelo "militarismo de mandato". As eleições seriam a válvula que aliviaria essa pressão. O governo serviria de improviso como estanque.

Infelizmente, o Governo Temer parece incapaz de cumprir essa missão. Ele recebeu uma pauta que exige musculatura. Inclui limitar gastos públicos, reformar a previdência, flexibilizar os direitos trabalhistas. Sua capacidade de agir no entanto tem sido restrita demais para isso. Como o governo anterior, o Governo Temer também tem sido alvo de investigações e de insatisfação. Ele surge com o rabo preso e com o fôlego curto. Isso arruína sua governabilidade e o lança na defensiva. O resultado é um governo acuado, pífio, medroso. Piora a impressão de que democracias são sujas, lentas e incompetentes.

Solavancos como o atual eram esperados. A gestão atual foi parida na corda bamba. Ela derivou de um governo decapitado por um impeachment. Além disso, herdou diversos males desse governo. Muitos desses males teriam consequências em efeito retardado. Foi o caso dos subsídios aos preços dos combustíveis, usados pelo Governo Dilma para controlar a inflação. Uma irresponsabilidade que agora impõe seu custo amargo. A greve dos caminhoneiros é consequência dessa atitude.

O que realmente causa preocupação é a intensidade desse solavanco. Até o momento, o governo Temer parecia capaz de se manter até as eleições. Ele concentrava as esperanças daqueles que protestaram pelo impeachment. Talvez não fosse a mudança ideal. Mas era uma mudança. E qualquer mudança era melhor do que a insatisfação que culminou nas manifestações monstro entre 2013 e 2016.

O governo Temer bem que tentou aproveitar dessa vantagem. Ciente de seu lugar, prolongou as pazes e obteve sobrevida como pode. Sua única possibilidade de manobra no entanto é decepcionante: abrir concessões. Sua prioridade é a mera sobrevivência. Isso o torna inepto, frouxo, moroso. Foi incapaz até mesmo de dissolver o Ministério da Cultura, defendido por uma classe artística politicamente irrelevante. Não possui o mínimo de virtude maquiavelista da qual qualquer governo necessita para simplesmente funcionar e ser possível.

Mas talvez esses riscos não tenham todos esses dentes. É o que se conclui, por exemplo, da classe militar. Nessas eleições, ela possui candidatos consistentes à presidência e ao Congresso. Eleger esses representantes geraria efeito mais vantajoso do que qualquer outra atitude. De qualquer forma, mesmo como "teoria conspiratória" – incomoda pensar que a democracia brasileira depende de alguma forma do Governo Temer. O contexto atual faz duvidar se ele consegue se manter até outubro. Mesmo que consiga, é improvável que sobreviva a um novo baque. E novos baques – por que não? – irão acontecer. 

Cedo ou tarde alguém irá atacar. Novos setores irão cruzar os braços. A fraqueza do Governo Temer é cada vez mais exposta. A presa é fácil e atrai predadores. O país sofre o risco de novas convulsões. Outubro parece cada vez mais distante. E a experiência chilena vem nos assombrar. 

A redação.


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