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ARTIGO
As relações sexuais dos animais

21 de Setembro de 2010
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As relações sexuais dos animais
Observadas em todo reino animal e mais freqüentes entre espécimes em cativeiro, relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo podem ser uma forma de aliviar o stress, dissipar tensões sociais e obter ajuda para proteger os filhotes .

Casais homossexuais são comuns entre pingüins de zoológico; escassez de parceiros do sexo oposto parece influenciar aproximação.

Roy e Silo, dois pingüins nativos da Antártida, se encontraram, em 1998, num tanque do zoológico Central Park, em Nova York. Tão logo se viram, começaram a se exibir um para o outro. Primeiro se empoleiraram numas pedras, de onde mergulhavam na água. Depois se aproximaram, enroscaram os pescoços, emitiram grunhidos e acasalaram. Por fim, construíram um ninho e, juntos, esperaram pelo ovo que nunca viria: afinal, ambos são machos.

O zelador do zoológico, Robert Gramzay, assistiu a tudo com curiosidade. E resolveu ajudar a dupla, roubando um ovo de um verdadeiro casal de pingüins heterossexual, que não estava conseguindo chocá-lo. Gramzay o colocou no ninho de Roy e Silo, que se alternaram na tarefa de aquecer a futura cria debaixo de seus ventres gordos, até que depois de 34 dias, o filhote rompeu a casca e enxergou pela primeira vez o mundo. Era uma fêmea cinza e penugenta, que recebeu aconchego e alimento com a mesma dedicação observada em duplas formadas por machos e fêmeas.

Os pesquisadores estão descobrindo que este tipo de casal, constituído por indivíduos do mesmo sexo, é surpreendentemente comum no reino animal. Roy e Silo pertencem a uma das cerca de 1.500 espécies de animais já observadas, em que há evidências de homossexualidade, seja no ambiente selvagem, seja em cativeiro. Alguns estudos indicam ainda que essas relações podem acontecer tanto entre machos, como entre fêmeas, jovens e idosos, espécies de hábitos solitários ou sociais, e em todos os níveis da escala evolutiva animal: de insetos a mamíferos.

Mas, ao contrário do que fazemos em relação às pessoas, não podemos dizer com certeza que esses bichos são gays, pois um animal que participa de uma prática homossexual não necessariamente evita relações heterossexuais. Tudo indica, aliás, que relações entre indivíduos do mesmo sexo sejam algo esperado na vida em sociedade de várias espécies, embora não haja sujeitos estritamente gays. Muitos deles poderiam ser classificados, portanto, como bissexuais. “Para os animais não existe identidade sexual. Eles só se importam com o sexo”, diz o sociólogo Eric Anderson da Universidade de Bath, Reino Unido.

O estudo das relações homossexuais em diversas espécies pode elucidar as origens evolutivas desse comportamento. Pesquisadores estão revelando, por exemplo, que os indivíduos podem se unir a outros do mesmo sexo para dissipar tensões sociais, proteger seus filhotes, manter a fertilidade quando parceiros do sexo oposto são escassos – ou simplesmente porque é divertido. Essas observações sugerem, para alguns, que a bissexualidade é natural entre animais e, possivelmente também para o Homo sapiens. “As categorias gay e heterossexual são construídas social e culturalmente pelos seres humanos”, observa Anderson.

FALTA DE OPÇÃO
É verdade, porém, que em muitas espécies (como os pingüins) a homossexualidade é bem mais comum no cativeiro do que no habitat nativo. Segundo alguns cientistas, a explicação pode ser a escassez de parceiros do sexo oposto. Além disso, ambientes restritos aumentam o stress do animal, que pode recorrer ao sexo como um impulso para aliviar suas tensões. Isso a que os especialistas chamam “homossexualidade circunstancial” costuma ser observado também em seres humanos, em ambientes em que predomina um sexo, como nas prisões.

Os primeiros estudos sobre homossexualidade animal datam do fim do século XIX e se concentraram na observação de insetos e animais pequenos. Em 1896, por exemplo, o entomólogo francês Henri Gadeau de Kerville, da Sociedade dos Amigos das Ciências Naturais e do Museu de Rouen, publicou um desenho de dois besouros escaravelhos copulando. Durante a primeira metade do século XX, vários pesquisadores relataram observações semelhantes em macacos babuínos, cobras e pingüins, entre outros. Obviamente, os cientistas daquela época consideravam anormal esse tipo de comportamento. E, em certos casos, os animais eram submetidos à castração ou à lobotomia.

Um desses trabalhos pioneiros foi além da mera descrição e discutiu as possíveis origens da homossexualidade animal. Em um experimento realizado em 1914, o psicopatologista americano Gilbert van Tassel Hamilton relatou relações homossexuais em 20 macacos-do-japão e dois babuínos, destacando que, na maioria das vezes, o comportamento era adotado por inimigos do mesmo grupo para fazer as pazes. No Journal of Animal Behavior, Hamilton escreveu que as fêmeas de babuíno ofereciam sexo às líderes do grupo. “O comportamento homossexual- é relativamente freqüente nas fêmeas quando ameaçadas por outras fêmeas, e raramente se manifesta como resposta ao apetite sexual.” Nos machos, ele escreveu que “as alianças entre machos jovens e maduros podem ter valor de proteção para os últimos, pois garantem o auxílio de um defensor adulto no caso de um ataque”.

Mais recentemente, alguns pesquisadores chegaram a conclusões semelhantes ao estudar macacos bonobos. Pelo menos metade das relações sexuais destes primatas (muito promíscuos, por sinal) são com parceiros do mesmo sexo. As fêmeas costumam esfregar os órgãos genitais umas nas outras com tanta freqüência que alguns cientistas sugeriram que sua genitália deve ter evoluído para facilitar esse contato. “O clitóris delas localiza-se frontalmente, talvez porque a seleção tenha favorecido uma posição que tornasse mais intensa a estimulação durante a fricção”, escreveu a ecologista comportamental Marlene Zuk, da Universidade da Califórnia em Riverside, no livro Sexual selections – what we can and can’t learn about sex from animals, de 2002. Já os machos de bonobo foram observados montando e acariciando uns aos outros, bem como fazendo sexo oral.

No livro Bonobo – The forgotten ape, o primatólogo Frans de Waal conta que quando uma fêmea ataca uma jovem e a mãe desta última vem em sua defesa, o problema pode ser resolvido por intenso esfregamento de genitais entre as duas adultas. De Waal observou centenas de casos como esse, sugerindo que relações homossexuais sejam uma estratégia geral para manter a paz. “Quanto mais comum a prática homossexual, mais pacífica é a espécie”, afirma o biólogo Petter Bockman, do Museu de História Natural da Universidade de Oslo, Noruega. “Os bonobos, por exemplo, são muito pacíficos”, sustenta. Tais atos parecem ser tão essenciais para a socialização dos bonobos que constituem um rito de passagem das jovens fêmeas para a idade adulta. Esses animais vivem em grupos de cerca de 60 indivíduos, num sistema matriarcal. As fêmeas deixam o clã durante a adolescência e são admitidas em outro, onde são cuidadas por fêmeas com quem têm encontros sexuais. Esses comportamentos criam laços sociais e dão às novatas benefícios como proteção e comida.

Casos de Poligamia

Em algumas espécie de pássaros, as uniões do mesmo sexo, em particular entre machos, podem ter evoluído como uma estratégia de cuidado dos filhotes para aumentar sua taxa de sobrevivência. “Entre os cisnes negros, se dois machos se encontram e fazem um ninho, eles podem ser mais bem-sucedidos para criar um órfão porque são maiores e mais fortes do que um macho e uma fêmea com uma cria biológica”, diz Bockman.

Em outras situações, as uniões homos-sexuais entre fêmeas aumentam a chance de sobrevivência da cria quando pares macho-fêmea não são possíveis. Nos ostraceiros, aves que habitam zonas costeiras e rochosas, a intensa competição por companheiros machos deixaria muitas fêmeas sozinhas se não fosse a existência de trios polígamos. Em um artigo publicado na revista Nature, em 1998, o zoólogo Dik Heg e o geneticista Rob van Treuren, da Universidade de Groningen, Holanda, observaram que aproximadamente 2% dos grupos de procriação dos ostraceiros eram formados por duas fêmeas e um macho. Os pesquisadores descobriram que, em alguns deles, elas cuidavam de ninhos separados e brigavam pelo macho; mas, em outros, todos os três pássaros zelavam por um único ninho. No último caso, elas criavam laços montando tanto no macho como em outra fêmea. Os triângulos cooperativos produziam mais filhotes que os tradicionais, porque seus ninhos eram mais bem cuidados e protegidos de predadores.

Tais arranjos apontam para a vantagem adaptativa dos relacionamentos sociais estáveis, qualquer que seja seu tipo. A pesquisadora Joan E. Roughgarden, da Universidade Stanford, acredita que os biólogos evolutivos costumam aderir com excessivo entusiasmo à teoria da seleção sexual de Darwin, ignorando a importância de laços e amizades para as sociedades animais e a sobrevivência de seus filhotes. “Darwin igualava a reprodução a encontrar um companheiro, em vez de prestar atenção em como a prole é cuidada”, diz a bióloga.

Proteger os filhotes, criar laços sociais e evitar conflitos, porém, podem não ser os únicos motivos pelos quais os animais se engajam em relações homossexuais. Talvez muitos deles façam isso apenas “porque querem”, diz Bockman. “As pessoas vêem os animais como robôs que se comportam como os genes mandam, mas eles também têm preferências, e reagem de acordo com elas.”

Um estudo recente indica que o comportamento homossexual pode ser tão comum porque tem sua raiz no cérebro do animal. Bem, pelo menos no caso das moscas-das-frutas. Em artigo publicado no início de 2008 na Nature Neuroscience, o neurocientista David E. Featherstone, da Universidade de Illinois, Chicago, descobriu que podia manipular a orientação sexual desses insetos por meio do gene responsável por uma proteína que regula a comunicação entre neurônios que secretam o neurotransmissor glutamato.

Os machos que carregavam uma determinada variante desse gene eram atraídos de maneira atípica pelos sinais químicos exalados por outros machos. Como resultado, esses mutantes cortejaram os machos e tentaram copular com eles. A descoberta sugere que moscas-de-fruta selvagens podem ter tendências tanto para o comportamento heterossexual como o homossexual, afirmam os autores. Essa arquitetura cerebral talvez permita que a atração pelo mesmo sexo venha à tona com mais facilidade, apoiando a noção de que é capaz de conferir uma vantagem evolutiva em determinadas circunstâncias.

Em algumas espécies menos sociais, o comportamento homossexual é quase desconhecido na natureza, embora possa ser observado em cativeiro. Coalas selvagens, quase sempre solitários, parecem ser estritamente heterossexuais quando estão em seu habitat natural. No entanto, um estudo de 2007 realizado pelo veterinário Clive J. C. Phillips, da Universidade de Queensland, Austrália, mostrou 43 ocorrências de atividade homossexual entre fêmeas que viviam numa área cercada no Santuário de Coalas Lone Pine. Elas também emitiam chamados de acasalamento tipicamente masculinos e acasalavam umas com as outras, algumas vezes participando de múltiplos encontros com até cinco animais.

Phillips acredita que as fêmeas agiam dessa maneira em parte por causa do stress. A falta de machos provavelmente é um dos principais fatores estressantes, segundo o veterinário. Quando as fêmeas de coala estão no cio, seus ovários liberam o hormônio sexual estrogênio, que ativa o comportamento de acasalamento – quer os machos estejam presentes ou não. Esse ímpeto de copular, mesmo com uma parceira, pode ser adaptativo. “Esse comportamento preserva a função sexual, permitindo ao animal manter seu preparo físico reprodutivo e o interesse na atividade sexual”, diz Phillips. Nos machos, esse benefício é ainda mais óbvio: o comportamento homossexual estimula a produção contínua de fluido seminal.

Coesão da equipe

Acredita-se que a falta de parceiros do sexo oposto também possa explicar a predominância de homossexualidade em pingüins de zoológico. Além de Roy e Silo nos Estados Unidos, 20 outras uniões homossexuais já foram observadas no Japão. “Mas isso é bastante raro nos habitats naturais dos pingüins”, diz o ecologista Keisuke Ueda, da Universidade Rikkyo em Tóquio. Segundo ele, esse comportamento é resultado da proporção desigual entre machos e fêmeas nesses ambientes. Alguns pesquisadores vêm estudando também as relações homossexuais de rebanhos de gado – algo muito comum, segundos os criadores. Entre as vacas, o comportamento não serve apenas para aliviar o stress, é uma forma de sinalizar receptividade sexual. Ao montarem umas nas outras, as fêmeas indicam sua disponibilidade para acasalar com machos, e o criador aproveita a dica para trazer o touro mais adequado para perto dela.
A cópula homossexual é bem mais rara em rebanhos selvagens, afirma Phillips, baseado numa pesquisa com gauros (espécie de boi selvagem asiático) na Malásia.

Tanto o stress como a maior disponibilidade também de parceiros do mesmo sexo são fatores que aumentam as relações homossexuais entre seres humanos quando restritos a lugares como quartéis, prisões e ambientes esportivos. Um estudo publicado em 2008 no periódico Sex Roles mostrou que de 40% a 49% de ex-jogadores de futebol americano heterossexuais tiveram ao menos uma relação homossexual, o que pode ter incluído beijos, sexo oral ou encontros a três (com mais uma mulher). “A homossexualidade parece aumentar a coesão dessas equipes”, afirma Anderson.

Nas últimas décadas, vários zoológicos do mundo estão tentando minimizar o stress do cativeiro tornando as áreas cercadas mais parecidas com os habitats naturais das espécies. Há 50 anos, os animais viviam em jaulas sufocantes, mas desde os anos 70 esses ambientes vêm mudando, as grades vêm sendo evitadas, plantas fazem parte dos espaços, hoje mais amplos e hospitaleiros pesquisadores esperam que essas melhorias afetem o comportamento dos animais, tornando-o mais parecido com o que ocorre na natureza. Um possível sinal das condições menos estressantes pode ser uma taxa de homossexualidade mais semelhante à dos membros selvagens da mesma espécie.

Algumas correntes de pesquisa e militantes de movimentos em defesa dos direitos de homossexuais, no entanto, contestam a noção de que mantenedores de zoológicos devem prevenir ou desencorajar o comportamento homoerótico dos animais de que cuidam. Para alguns especialistas, os seres humanos, assim como outros animais, são naturalmente bissexuais.“A homossexualidade está misturada com a heterossexualidade em várias culturas e ao longo da história”, defende Roughgarden. Até mesmo Silo, o pingüim que durante seis anos viveu em comunhão com Roy, mostrou essa versatilidade. Em um belo dia da primavera de 2004, uma fêmea chamada Scrapp, recém-chegada do SeaWorld de San Diego, arrebatou seu coração. Ele então abandonou Roy. Já Tango, a “filha” deles, escolheu outra fêmea, Tazuni, para compartilhar a vida. (Tradução de Júlio Oliveira). 

Conceitos-chave

Relações homossexuais já foram observadas em cerca de 1.500 espécies, tanto em cativeiro como em seu habitat natural.

Em algumas espécies, a união homossexual parece ser mais freqüente entre animais em cativeiro do que nos de vida livre. Pesquisadores acreditam que esse comportamento seja uma resposta ao stress causado pelos ambientes restritos e pela escassez de parceiros do sexo oposto.

Para os animais, participar de atos homossexuais pode ser uma forma de obter apoio do(a) companheiro(a) mais forte e de manter a fecundidade enquanto faltarem parceiros para relações heterossexuais.

Pesquisas mostram que os triângulos cooperativos produziam mais filhotes que os tradicionais, porque seus ninhos eram mais bem cuidados e protegidos de predadores.

Sedutoras, porém rejeitadas

Muitas vezes os profissionais que trabalham em zoológicos não sabem como reagir ao observar o comportamento homossexual dos animais. Em 2005, funcionários do Zoológico do Mar, em Bremerhaven, Alemanha, descobriram que três de seus cinco casais de pingüins Humboldt eram formados por indivíduos do mesmo sexo. Por se tratar de uma espécie em extinção, apressaram-se em trazer quatro fêmeas da Suécia, o que causou fúria em grupos de gays e lésbicas de todo mundo. Numa carta para o prefeito de Bremerhaven, Jorg Schulz, ativistas europeus protestaram contra o que chamaram de “assédio organizado e forçado por meio de fêmeas sedutoras”.
Os machos, porém, ignoraram a chegada das jovens suecas. “Eles nem sequer olharam para elas”, disse o diretor do zoológico, Heike Kiick, à revista alemã Der Spiegel. A solução foi trazer outros machos para fazer companhia às fêmeas solitárias.

Para conhecer mais:

Evolução do gênero e da sexualidade. Joan Roughgarden. Ed. Planta, 2004.

Biological exuberance: animal homosexuality and natural diversity, Bruce Bagemihl. St. Martin’s Press, 2000.

Heterosexual and homosexual behaviour and vocalisations in captive female koalas (Phascolarctos cinereus). Stacey Feige, Kate Nilsson, Clive J. C. Phillips e Steve D. Johnston, em Applied Animal Behaviour Science, vol. 103, no 1-2, págs. 131-145, 2007.

Homossexualidade como traço adaptativo. Mente&Cérebro 185, junho de 2008.


Colunista: Rômulo Vitório - mundoanimal@capixabao.com

Imagem: Reprodução


Fonte: Mente e Cérebro

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