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Ana Paula Vescovi
A colatinense Ana Paula Vescovi é uma das mais legítimas representantes femininas no desenvolvimento do Estado

25 de Setembro de 2012
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A colatinense Ana Paula Vescovi é uma das mais legítimas representantes femininas no desenvolvimento do Estado
Ana Paula Vescovi tem realizado um trabalho digno de nota à frente do IJSN (Foto: Reprodução)
A revista ES Brasil foi conversar com uma das mais legítimas representantes da importante contribuição feminina para o desenvolvimento do Estado. Unindo conhecimento altamente especializado, competência técnica e a sensibilidade do olhar feminino para as mazelas da sociedade, a colatinense Ana Paula Vescovi tem realizado um trabalho digno de nota à frente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN).

Mestre em Economia do Setor Público pela UnB e em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, ela vem conduzindo, desde 2008, um intenso trabalho de reestruturação do órgão, que é o braço do Governo Estadual para a realização de pesquisas fundamentais para a compreensão da dinâmica da economia local e a conseqüente formulação de políticas públicas fomentadoras de um desenvolvimento sustentável.

A aparência, quase angelical, não esconde a inteligência aguda. O olhar crítico também não deixa de lado o orgulho pelas conquistas dos capixabas na última década. E a capacidade analítica é toda colocada a serviço de seu maior ideal: contribuir para promover uma sociedade mais justa, mais inclusiva e com instituições mais democráticas, onde o bem comum seja o consenso geral. Conheça a seguir, e no site www.revistaesbrasil.com.br, as idéias e o trabalho da diretora-presidente do IJSN.

ES Brasil: A partir do trabalho do IJSN, como avalia a evolução do desenvolvimento capixaba na última década?
Ana Paula Vescovi: Eu penso que realmente essa última década será emblemática de um ponto de inflexão, de uma mudança muito importante. Acredito que tenha sido a década mais completa em termos do desenvolvimento socioeconômico do Estado e que todos os padrões que irão mudar daqui para a frente vão alçar o Espírito Santo a uma situação bastante diferenciada, vis a vis o que os processos de desenvolvimento anteriores conseguiram.

O que estou querendo dizer é que o ciclo da agricultura cafeeira, embora muito importante para o Estado - talvez, o que inaugurou nossa vocação para o comércio exterior -, era um processo agrário, primário. Já a industrialização dos anos 70 e 80, também muito importante, mudou a dinâmica da economia, mas foi altamente concentrada, setorial e territorialmente. Agora, estamos associando duas coisas muito raras de se ver: crescimento econômico, aumento de renda, associado à melhoria da distribuição dessa renda. E uma conjugação de fatores muito difícil de se observar no desenvolvimento das nações.

Esse é um quadro que também acontece no Brasil, mas é mais enfático no ES. Porém, o que eu destaco como ainda mais importante é que as instituições estão caminhando no sentido de consolidar esse processo. Porque se você não aumenta a transparência sobre as ações públicas, se não aumenta a organização do setor privado, se não consegue melhorar a qualificação profissional, a escolarização da população, a inclusão social, na verdade não consegue consolidar e sustentar esse processo. O que sustenta o desenvolvimento econômico é o fato de ele reverter em melhoria da qualidade de vida para as pessoas.

As pesquisas do IJSN confirmam a redução da pobreza divulgada pelo Governo? Qual o perfil da população incluída e qual a importância disso para a economia como um todo?
Na verdade, eu creio que foram as nossas pesquisas aqui no Instituto que começaram a descortinar maiores e mais detalhadas evidências sobre esse processo de redução da pobreza. Creio que conseguimos, dentro da nossa missão institucional, incorporar essa preocupação de acompanhar, monitorar e revelar as mudanças que a sociedade tem sofrido aqui no Estado.

A redução da pobreza, que também acontece no Brasil, é bastante verdade aqui no Espírito Santo. Mas persistem os desafios: conseguimos reduzir a metade da pobreza em relação a 2003, o que significa que ainda há outra metade que precisa ser inserida. As pessoas que estão sendo incluídas são as que tinham condições de ser produtivas, mas encontravam poucas oportunidades. Essa inclusão é bastante explicada pelo processo de geração de empregos, mostrando uma situação muito equilibrada no perfil da redução da pobreza no Estado - o que é um fato inusitado, muito particular do ES, porque dentre os fatores que a determinaram, metade foi a intensidade do crescimento econômico e suas características, e a outra metade foi distribuição da renda, por meio das políticas públicas, do aumento da escolarização e até de fatores demográficos.

Isso tudo ajuda muito no caminho que temos pela frente, porque dinamiza a própria economia e ajuda a dar às famílias condições de se estruturarem mais adequadamente - afinal de contas, é na família que a pobreza se produz e se reproduz. E não é tão simples para o Estado entrar nesse meio, que é privado. Isso já é visível nos nossos dados: as famílias capixabas têm reduzido o seu tamanho, e muito rapidamente; a taxa de natalidade está menor, o que leva a uma pressão menor sobre as políticas públicas.

Mas, por outro lado, a taxa de mortalidade entre os jovens aumentou muito. Como você analisa esse fenômeno e suas consequências para a economia?
Esse fenômeno tem ocupado as discussões entre governos, mundialmente, e tem graves consequências, sim. Drogas, violência, acidentes de trânsito, são fatores encadeados. A mortalidade na juventude aumentou, é fato. Isso também está relacionado à questão da violência, que além de roubar qualidade de vida da sociedade, inibe o processo de crescimento, como vimos acontecer, por exemplo, com o Rio de Janeiro. O que eu acredito é que as políticas públicas precisam inovar, se integrar e convergir com centralidade na agenda dos governos, pois realmente não é uma solução trivial. Não adianta achar que um problema tão complexo vai ter uma solução fácil e rápida. Esse é um processo que realmente tem que ser tratado em diversas dimensões: epidemiológica, educacional, da prevenção, da repressão. E vamos precisar enfrentar e tratar desse problema por muitos anos ainda, imagino.

Como analisa o papel das empresas locais nesse que já foi chamado de círculo virtuoso da nossa economia? O que você destacaria sob este aspecto?
Agora, observamos uma nova onda de industrialização, com o aumento da capacidade de plantas industriais instaladas aqui nos anos 70 e 80, e um novo ciclo de negócios, com o petróleo e gás. E vemos que as empresas locais estão se organizando para novamente se beneficiar dessas oportunidades - inclusive, saindo do Estado, já que começamos uma acumulação de vantagens das nossas empresas em relação às demais, e alcançamos algumas especialidades, como na área siderúrgica, de metalmecânica, de construção, de manutenção. Há um movimento de saída dessas empresas para colher oportunidades em outros Estados, isso é realidade. Mas precisamos dar um passo mais enfático na inovação tecnológica. Um passo muito largo foi dado na direção da tecnologia, pela constituição de fundos públicos de apoio à ciência e à inovação tecnológica. Noto uma mobilização muito grande nesse setor. São movimentos ainda muito recentes, inclusive no Brasil, mas muito em breve vamos começar a colher frutos desse processo.

Lançando um olhar global para a economia do ES, o que você reputa que ainda precisa avançar ou ser melhorado? Quais os pontos críticos?
Aumentar esse padrão de conquistas sociais, dar acesso a educação de boa qualidade, à saúde, são vários os pontos em que precisamos melhorar. Acredito, no entanto, que essa mudança de direção tem um desenho por trás que precisa ser mantido: permitir que o crescimento econômico aconteça - então, os investimentos em infraestrutura precisam ser persistentes e, na medida do possível, incrementados; e precisamos ter segurança jurídica, para que os investidores venham, tendo a imagem de um Estado transparente, com boa e ética gestão pública - e, de outro lado, à medida que a arrecadação melhora, conseguir fazer políticas públicas que deem conta dos problemas que observamos na sociedade. Destaco um exemplo: a sociedade começa e envelhecer. E isso, nos próximos 20 anos, é o que a gente chama de bônus demográfico. Porque hoje ela envelhece aumentando o número de jovens e adultos em idade de trabalhar, mas daqui a 20 anos ela vai envelhecer com o predomínio de pessoas aposentadas. Então, temos que nos preparar para realmente melhorar a qualidade das políticas públicas nesse horizonte. É um desafio aproveitar essa janela de tempo para melhorar a infraestrutura de forma a permitir atrair investimentos e, com isso, fazer o crescimento econômico se concretizar.

O Instituto já faz ou vai fazer algum estudo avaliando o impacto da perda dos royalties do petróleo sobre a economia local com a queda de arrecadação?
Nós estamos monitorando, porque estão estudando a constitucionalidade dessa matéria. Esse processo não terminou, então não tem como a gente dizer que foi um golpe fatal. Dificilmente teremos um impacto esse ano. No curto prazo, não haverá reflexos, pois o orçamento está organizado dentro da capacidade fiscal e financeira do Estado. No médio e longo prazo sim, o Estado tem que se reorganizar em função deste recurso, porque teremos uma menor capacidade de investimento. Isso vai tirar dos capixabas capacidade de crescer no futuro, e precisa ficar muito claro para a sociedade. Mas o problema é que realmente foi um golpe muito forte para as instituições, porque traz impactos sobre contratos que já estão assinados e muda a situação de alguns municípios, a ponto de até acabar com alguns deles, o que é muito grave. Porém, por ora estamos mais preocupados em estudar como lidar com a renda de compensações financeiras sobre recursos que não são renováveis. A lógica de lidar com esses recursos precisa ser diferente.

Você atua numa área dominada por homens. Como e por que se sentiu atraída pela frieza dos números? Você já sofreu algum preconceito profissional por ser mulher?
Na verdade eu me senti atraída pelos problemas da sociedade. E ai o foco, o olhar da Economia, vai muito além de outros olhares, que também são importantes, como a Sociologia e outras ciências que estão associados ao estudo dos problemas da sociedade. Mas na verdade o que me atraiu foi isso: como entender, interpretar e solucionar os problemas da sociedade. Por que não é algo trivial, fazer políticas públicas que deem resultado. Nem sempre aquilo que você desenha, você consegue, porque não se tem domínio sobre todos os elementos presentes na realidade. Por isso é que é importante avaliar permanentemente as políticas públicas. Por isso é que é importante ter uma instituição, como o Estado está tentando construir a partir do IJSN, que esteja permanentemente olhando para como anda a sociedade, como anda a economia e quais os impactos que programas específicos têm gerado sobre a vida dos cidadãos.


Fonte: Revista ES Brasil

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